Wednesday, February 18, 2009

en Voyage... Meu percurso com Picasso

Não saberia precisar quando vi Picasso pela primeira vez. Porém, a grande exposição, em 1986, no Paço Imperial, RJ, foi o começo de tudo. Lá estavam reunidas algumas de suas maiores obras-primas. Lembro que fiquei extasiada ao entrar em uma pequena sala, toda pintada de preto, onde se viam as pinturas da “Minotauromania”. Uma dessas pinturas chamou minha atenção em especial: ela capturava o meu olhar, sem que eu pudesse resistir ao seu apelo. As pessoas que estavam comigo não entendiam como aquele quadro – “pequeno, em preto e branco, esquisito, estranho” – podia ter me conquistado. Por que aquele quadro? Estranho...




A partir de então, Picasso tornou-se meu artista predileto. Com isso, muitas vezes fui questionada, sobre ele e sua obra, por pessoas tentando “entendê-lo”. Sempre que isso acontece, me pergunto o porquê. Será preciso entender Picasso? Por que as pessoas não são indiferentes a ele? Picasso parece sempre inquietante. É difícil alguém não se sentir “mexido” frente a ele. Que mal-estar é esse que as pessoas tentam superar? Por que não é possível suportar o estranhamento frente à obra de Picasso? Serão precisas palavras para explicar? Normalmente, quem chega a formular a sua inquietação diz que ele põe “tudo fora do lugar”! E me perguntam: Como você gosta disso?

Outro momento marcante aconteceu, em 1998, no Museu Picasso, em Paris, quando uma conversa me chamou a atenção. Frente a um quadro, uma mulher apontava e como que “desenhava” no ar, enquanto descrevia para a outra: “Isso é um braço... aqui está o rosto...” Fiquei impressionada, sem compreender bem o motivo. Por que elas precisavam “achar” ali um braço, um rosto? Era preciso ver a realidade? Aqueles “pedaços” deviam ser recolocados para fazer sentido? Será que o desconforto daquelas que conversavam exprimia o que acontece frente aos quadros de Picasso? Eu, entretanto, não sinto esse desconforto – na verdade, me sinto “preenchida”.

Foto: Musée Picasso, Paris


Fotos: MoMA, NY


Em agosto de 2000, no MoMA, Nova York, tive a oportunidade de ver uma das maiores obras do século XX – “Les Demoiselles d'Avignon” – ao vivo. Minha reação foi impressionante: eu, literalmente, caí sentada em frente a ele! Precisei de um certo tempo para assimilá-lo! Foi uma reação muito forte... Mas, também não foi de desconforto ou estranhamento... Em geral, as pessoas se “desculpam” por não gostar dele, completando que preferem outros artistas – em geral, artistas cujas obras retratam objetos, pessoas, natureza, de forma mais “fidedigna”, isto é, onde “braços são braços e rostos são rostos”, ou seja, o que é, está lá, “reconhecível”.

Nesse incômodo que persiste – pois é o que fica de Picasso nas pessoas – está a minha grande dúvida: por que é justamente isso que mobiliza as pessoas? Também gostaria de entender por que outras pessoas, como eu, gostam disso.

E você o que acha?




Les Demoiselles d’AvignonPicasso 1907: apesar de não ser propriamente uma obra cubista, ela inaugura o movimento que revolucionou a história da arte. Ao instaurar a arte moderna, é o ponto de início lógico deste movimento de vanguarda, tornando-se a ponte entre o passado e a modernidade, ao romper com o conceito de pintura como imitação.

No comments:

Post a Comment